Público e privado em comunicações móveis

Sumário

Uma questão crucial no que diz respeito a comunicações móveis é o statusdas imagens captadas por telemóveis, dentro do contexto maior das mensagens que são difundidas e circulam através de redes sociais on-line e outras plataformas digitais, e que são expandidas regularmente para os meios de comunicação de massas.

Há uma série de situações em que a gravação e a difusão envolvem questões complexas relacionadas com a privacidade, denúncia, noções de legitimidade para a exposição de outros, relações de poder que permeiam a interação social, e, finalmente, para uma vigilância potencial de toda a gente por todos os outros através de imagens.

O objetivo deste projeto é identificar como os usos e as atitudes culturais, éticas e políticas em relação a comunicações móveis e on-line se articulam com as noções de público e privado em gerações distintas; nomeadamente no que diz respeito à produção, difusão e receção de mensagens pelos públicos, incluindo mensagens especialmente icónicas.

 

O estado da arte

Uma questão crucial no que diz respeito a comunicações móveis é o status das imagens captadas por telemóveis, dentro do contexto maior das mensagens que são difundidas e circulam através de redes sociais on-line e outras plataformas digitais, e que são expandidas regularmente para os meios de comunicação de massas.

Esta pergunta insere-se no contexto de uma profunda transformação das relações entre o quotidiano e as utilizações dos meios de comunicação. Onde outrora tínhamos apenas alguns grupos profissionais específicos que sistematicamente transportavam consigo determinados dispositivos para produção simbólica, agora temos um grande número de indivíduos (em algumas sociedades, a maioria da população) que dispõem de meios permanentes de produção e difusão. Devido à existência de telemóveis equipados com câmaras fotográficas e gravadores de vídeo, os mecanismos de produção simbólica tornaram-se omnipresentes nas nossas sociedades (Davis, 2010).

Eventos especiais previamente aguardados ou programados ainda são captados em imagens por instituições e profissionais de meios de comunicação de massas, e até as pessoas comuns tendem a fazê-lo com dispositivos técnicos mais sofisticados e específicos (câmaras fotográficas e de vídeo). Mas quando os eventos são inesperados ou inacessíveis a profissionais especializados dos media, a omnipresença dos telemóveis como dispositivos democráticos de produção simbólica emerge como um ponto de partida para a divulgação geral de mensagens, implicando alterações consideráveis nas distinções tradicionais entre público e privado (Groening, 2010; Humphreys, 2005).

De tal forma que a utilização destes meios já se inscreveu na história visual recente, desde os ataques terroristas de Londres em 2007, à repressão da demonstração em Teheran, em 2009, através dos disparos em escolas americanas ou terramotos em todos os continentes.

Além de situações com caráter público óbvio, há também uma variedade de casos que questionam as fronteiras entre o domínio privado e o público, e onde estão em jogo questões de natureza cultural, política e ética. A execução de Saddam é um desses exemplos. Muitos outros, distintos em caráter, surgem da vida quotidiana, e em Portugal o enfoque tem estado mais ou menos em torno da adolescência: abundam os exemplos, como imagens de agressão, divulgadas por vídeo (em maio de 2011) ou vários vídeos de sala de aula, mostrando aspetos controversos das relações entre professores e alunos.

Estas são situações em que a gravação e a divulgação envolvem questões complexas relacionadas com a privacidade, denúncia, noções de legitimidade na exposição de outros, relações de poder permeando a interação social, e finalmente, com uma potencial vigilância de toda a gente por todos os outros através de imagens (Foucault, 1991). Perguntas, também, que surgiram em gerações anteriores no que diz respeito a teorizações dos media sobre meios visuais, como tecnologias que favorecem a indefinição de fronteiras entre comportamentos públicos e privados (Meyrowitz, 1985).

Mas há um terceiro nível: a captação de imagens de um quotidiano mais banal, da suposta vida normal. Imagens, em primeiro lugar, que os indivíduos tiram e armazenam a qualquer momento para memória pessoal ou para interação em círculos íntimos ou restritos (Ling, 2008). Mas também imagens de si próprios e da vida quotidiana que são voluntariamente divulgadas e postas em circulação sob vários modos de acesso: como material de comunicação interpessoal; dentro de grupos limitados de pessoas; ou tornando-se virtualmente acessíveis pública e universalmente – e, daí em diante, podendo ser reproduzidas por outros ou até mesmo usadas e transformadas em diferentes contextos de comunicação. Práticas que evocam, aqui, as noções de estética, interação mediada, identidade pessoal e particularmente a área do género, onde a cultura visual se tem vindo a articular há muito tempo com a representação de papéis sociais, de ver e ser visto, seduzir e ser seduzido (Goffman, 1976; Kress e Van Leeuwen, 2004).

Neste contexto, o projeto "Público e Privado em Comunicações Móveis" não pretende debruçar-se sobre os telemóveis através da perspetiva das ameaças maléficas sobre ética pública ou através de qualquer outro prisma de pânico moral, ou "pânico móvel" relacionado com a adolescência e juventude (Goggin, 2006).

Em vez disso, o projeto tem como objetivo entender os seus usos, tendo em conta as atitudes e valores culturais mantidos por grupos sociais e considerando os significados que os indivíduos atribuem às tecnologias.

Assim, o objetivo geral é:

Perceber como os usos e as atitudes políticas, éticas e culturais relacionados com as comunicações online e móveis se articulam com as noções de público e privado em gerações distintas; nomeadamente no que toca à produção, divulgação e receção de mensagens pelos públicos, incluindo mensagens especialmente icónicas.

A abordagem desta questão geral terá em consideração vários aspetos que interferem com a relação entre público e privado e a cultura dos media, nomeadamente:

·      A reflexão teórica sobre a distinção e articulação entre as esferas pública e privada, esboçada no pensamento social e político.

·      A cultura da exposição mediada presente em formas como a exposição pública de "celebridades" privadas, géneros de televisão como reality-shows e cobertura jornalística de pessoas comuns e espaços domésticos, e esferas informais de produção de opinião.

·      A tendência de longo prazo para avaliar a vida política com base em aspetos da vida privada de atores políticos (Sennett, 1992).

·      A reflexão sobre a importância atribuída hoje à deliberação pública no âmbito das tecnologias de informação e comunicação, particularmente a discussão do conceito de esfera pública virtual através de redes sociais e dispositivos móveis (Davies, 2009).

·      A análise de tendências comunicativas que perspetivam o uso de telemóveis e de outros dispositivos móveis como um elemento-chave da reconfiguração das profissões tradicionais na área da comunicação (Gilmour, 2004; Glasser et al., 2009).

·      Os movimentos sociais em direção à privatização de recursos, bens, espaços e formas de regulamentação social (Judt, 2011), ou eventualmente os movimentos de resistência a essas tendências.

·      Os usos de novos mediae a reformulação da memória histórica e, por conseguinte, de identidades sociais, incluindo a dimensão de género.

 

Metodologia e resultados esperados

O projeto irá desenvolver uma série de metodologias empíricas:

·      Uma pesquisa representativa da população portuguesa (especialmente tendo em conta as dimensões da geração e do género) com o objetivo de delinear práticas e atitudes em relação ao uso de dispositivos móveis (particularmente a captação de imagens a partir de telemóveis) e valores relacionados com as noções de público e privado.

·      Um conjunto de entrevistas com o objetivo de compreender a fundo as motivações, significados e julgamentos que envolvem os usos públicos e privados de imagens da vida quotidiana entre 

 (a) adolescentes e jovens, 

 (b) adultos utilizadores de telemóveis para captação de imagens,

 (c) jornalistas e editores de meios de comunicação das instituições.

·      Estudos de caso de situações nas quais as imagens captadas principalmente por pessoas comuns, através de telemóveis acabaram por ser publicamente disseminadas.

·      Análise de redes sociais online no que toca a mensagens (especialmente icónicas) produzidas por usuários e sua divulgação.


Os resultados esperados são os seguintes:

·      Resultados no conhecimento científico através de 

 (a) edição de dois livros; 

 (b) edição de um número temático da revista académica Estudos de Comunicação; 

 (c) publicação de artigos em revistas académicas com sistema peer review

 (d) organização de uma conferência internacional; 

 (e) participação em congressos nacionais e internacionais em áreas académicas especializadas em Ciências Sociais e Humanas.

·      Divulgação de conhecimento para a sociedade e economia através de 

 (a) conferências em escolas e outras instituições ligadas às áreas educacionais; 

 (b) divulgação do projeto e seus resultados em plataformas on-line; 

 (c) artigos e outros géneros jornalísticos da imprensa e outros meios de comunicação de massas.



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