I Congresso de Jornalismo Sonoro: O nascimento de uma outra rádio

A rádio atravessa um processo de transformação estrutural que desafia as suas fronteiras tradicionais, os seus modos de produção e as próprias definições de linguagem radiofónica. Hoje, a rádio também mostra, produz vídeo, circula nas redes sociais, disponibiliza conteúdos sob a forma de podcast e procura adaptar as suas narrativas às lógicas de consumo do ecossistema digital. Contudo, esta expansão tecnológica e discursiva não significa necessariamente o desaparecimento da identidade do meio. Pelo contrário, coloca uma questão central: estaremos perante o nascimento de uma outra rádio ou perante a emergência de diferentes formas de rádio?

A distinção não é meramente terminológica. Produzir rádio não equivale a produzir um podcast, do mesmo modo que comunicar em direto durante a madrugada, estabelecendo uma relação simultânea com uma comunidade de ouvintes, não corresponde à difusão automatizada de conteúdos previamente programados. A temporalidade, a presença, a mediação jornalística, a construção de comunidade e a relação com o acontecimento continuam a constituir dimensões essenciais para compreender as especificidades do meio radiofónico.

É precisamente neste contexto de profunda reconfiguração que se inscreve o I Congresso de Jornalismo Sonoro: O nascimento de uma outra rádio. A rádio tradicional expande-se para um ecossistema mais amplo de produção, circulação e consumo de áudio, no qual coexistem emissão linear, podcasting, plataformas digitais, conteúdos audiovisuais, redes sociais e novas formas de distribuição algorítmica. Mais do que anunciar a substituição de um modelo por outro, importa compreender os processos de continuidade, hibridação e reinvenção que caracterizam esta transformação.

Realizado na Universidade da Beira Interior, onde o LabCom tem desenvolvido investigação relevante sobre rádio, jornalismo, comunicação digital e transformação mediática, o congresso propõe uma reflexão interdisciplinar sobre este processo a partir de quatro eixos fundamentais, aproximando a investigação científica da experiência profissional e das práticas emergentes no campo do jornalismo sonoro.

Esta articulação entre universidade e profissão constitui uma dimensão estruturante da iniciativa. Torna-se necessário consolidar pontes entre as redações e as instituições de ensino superior, concebendo a academia não apenas como espaço de formação de profissionais, mas também como lugar de produção de conhecimento, experimentação e inovação em diálogo com o setor dos média. Esta perspetiva materializa-se na própria conceção do congresso que, embora assente numa matriz científica, integrará igualmente workshops orientados por jornalistas e outros profissionais especializados, destinados aos estudantes da UBI.

A inclusão desta componente formativa responde igualmente às transformações provocadas pela evolução tecnológica e a crescente complexificação do ambiente digital que têm vindo a redefinir o perfil profissional e as competências exigidas aos jornalistas. O domínio técnico deixa, assim, de poder ser dissociado da capacidade crítica, da compreensão das linguagens mediáticas e da adaptação a modelos de produção cada vez mais convergentes.

Neste processo, o contacto entre estudantes, investigadores e profissionais assume particular relevância. Assim, a construção da identidade profissional do jornalista não decorre exclusivamente da aquisição de conhecimentos teóricos ou instrumentais, formando-se também através da confrontação com as práticas, os valores, as rotinas e os dilemas éticos inerentes ao exercício da profissão. O congresso pretende, deste modo, constituir um espaço simultaneamente científico, pedagógico e profissional, no qual seja possível pensar o futuro do jornalismo sonoro sem perder de vista aquilo que, apesar das sucessivas transformações tecnológicas, continua a distinguir a rádio enquanto linguagem, prática jornalística e experiência social.

Linhas temáticas para chamada de trabalhos

 O debate do congresso organizar-se-á em torno de quatro eixos estruturantes:

  1. O futuro do jornalismo sonoro: Analisa a transição da rádio para o áudio multiplataforma, os novos podcasts narrativos e o avanço da inteligência artificial e das vozes sintéticas, confrontando a automatização com a necessidade insubstituível da expressividade, da confiança e da ligação afetiva humana.
  2. Ética, inclusão e serviço público: Coloca em foco o papel das rádios locais e da proximidade face ao centralismo mediático. Discutir-se-á o Interior e os territórios de baixa densidade, combatendo o fenómeno do "jornalismo sentado" — provocado pela escassez de recursos e pela dependência de comunicados de imprensa — e promovendo um Serviço Público de Média inclusivo e atento a geografias e minorias invisíveis.
  3. Plataformas, sustentabilidade e modelos de negócio: Examina a distribuição móvel, as redes sociais e a atração de públicos jovens, numa era de transição digital marcada pela quebra de receitas publicitárias tradicionais e pela urgência de novas vias de monetização e sustentabilidade.
  4. Arquivos, memória e património radiofónico: Dedica-se à história da rádio e à preservação da memória coletiva, sublinhando que a salvaguarda e a abertura de arquivos sonoros digitais à comunidade e à academia são condições essenciais para evitar o esquecimento público deste rico património oral.

Este congresso constitui, assim, um espaço único de partilha, onde estudantes, investigadores e profissionais pensam e desenham, de forma colaborativa, o futuro do jornalismo sónico.

Submissão de Resumos

Contacto: congressodejornalismosonoro@gmail.com