A Universidade da Beira Interior (UBI) recebeu, entre os dias nove e 11 de fevereiro, o XIV Congresso da Sopcom. A edição deste ano foi organizada pelo LabCom, em parceria com a Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (Sopcom), e recebeu mais de 300 trabalhos ligados à área da comunicação, de investigadores de Portugal, Espanha, Brasil e China. A dimensão temporal e o tempo estiveram no centro dos três dias de discussão, tanto como elementos que moldam os processos comunicacionais como enquanto fatores que incidem sobre a produção científica.
O evento, realizado a cada dois anos, regressou à UBI depois de mais de duas décadas. Sessenta voluntários – estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento – estiveram envolvidos na organização, divididos em sete equipas que receberam e orientaram os participantes, garantindo, ainda, a cobertura de todas as atividades.
A coordenadora da comissão organizadora, Gisela Gonçalves (LabCom/UBI), destacou o envolvimento da comunidade académica não apenas na colaboração para o êxito do Congresso em termos operacionais, mas também na apresentação das investigações que estão a ser desenvolvidas no LabCom, naquilo que chamou de “uma experiência a 100%”. A professora destacou, ainda, a oportunidade que o Congresso representou para que mais pessoas pudessem conhecer, pela primeira vez, a UBI e o concelho da Covilhã. Madalena Oliveira, presidente da Sopcom que cessou o seu mandato neste ano, também enfatizou o sucesso da edição e o excelente acolhimento proporcionado neste ano, sublinhando “o empenho dos estudantes e o extraordinário trabalho de registo para a memória futura” do evento.
Entre as principais atividades, destacaram-se conferências internacionais, sessões plenárias, mesas-redondas com representantes de associações parceiras da SOPCOM e das principais revistas académicas de Portugal, além de uma sessão de lançamento de livros e da assembleia geral da entidade. A programação incluiu, ainda, seis sessões paralelas destinadas à apresentação de pesquisas que estão a ser desenvolvidas no âmbito das áreas temáticas ligadas aos 19 grupos de trabalho da SOPCOM.
A conferência inaugural, realizada na segunda-feira (9), foi proferida por Anne Kaun, professora e investigadora em Estudos de Comunicação e Media da Södertörn University, em Estocolmo, Suécia. Na sua intervenção desenvolveu uma reflexão sobre as novas temporalidades introduzidas pela Inteligência Artificial (IA) e sobre a transição dos meios físicos para o digital. Ainda no primeiro dia, Henrik Bødker, professor de Estudos dos Media na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, conduziu uma sessão estruturada em três eixos principais: a relação entre jornalismo, tempo e digital, a cobertura das alterações climáticas e o futuro do jornalismo, a partir da defesa da necessidade do desenvolvimento de estratégias que promovam abordagens baseadas na empatia e capazes de serem adaptadas a contextos de mudanças inesperadas.
O segundo dia de evento reuniu os professores João Figueira, da Universidade de Coimbra, e Maria Luísa Humanes, da Universidad Rey Juan Carlos, para um debate sobre o tempo na investigação e na informação. O professor da Universidade de Coimbra centrou-se nas implicações do tempo para a prática jornalística, apresentando uma crítica à lógica do imediatismo e defendendo, em contrapartida, um jornalismo que “não anda a correr”, baseado na escuta ativa e no trabalho reflexivo. A professora da universidade espanhola, por seu turno, abordou o tempo como variável fundamental na investigação científica, principalmente em estudos longitudinais, e dedicou parte de sua exposição aos métodos de pesquisa que auxiliam investigadores da comunicação nos estudos sobre os processos de transformação do campo.
Na linha desta discussão, a mesa-redonda composta por Marta Pérez, secretária da Agacom, Manuel Chaparro, membro da direção da AE-IC, Juliano Domingues, presidente da Intercom, Madalena Oliveira, presidente da SOPCOM, e Moisés Martins, presidente da Assibercom, debateu o modo como a investigação científica tem sido orientada muito mais por uma lógica produtivista do que para uma abordagem crítica, humanista e comprometida com o conhecimento.
A tensão entre velocidade e qualidade destacou-se como preocupação também no último dia de Congresso. Na quarta-feira (11), representantes das revistas científicas Mediapolis, Comunicação e Sociedade, Comunicação Pública, Media e Jornalismo, Estudos em Comunicação e Comunicando, refletiram sobre os desafios de se manterem como agentes ativos na construção do conhecimento frente à pressão cada vez maior imposta por métricas de produtividade. João Miranda, Madalena Oliveira, Jorge Veríssimo, Marisa Torres da Silva, Samuel Mateus e Marisa Mourão discutiram, ainda, a necessidade de garantir a sustentabilidade do sistema de publicações.
Os professores André Barata, da UBI, e José Luís Garcia, investigador sénior do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, foram os responsáveis pela condução da última sessão plenária do Congresso. Sob o mote “Tempo, sociedade e comunicação”, o que esteve em causa foi a perspectiva crítica sobre as pressões do tempo numa sociedade cada vez mais acelerada e condicionada por novas tecnologias. André Barata destacou as diferenças entre o tempo para estar e o tempo para ser, sublinhando que ambos exigem momentos alargados de reflexão e presença, indo de encontro ao ritmo atual da sociedade, baseado no instantâneo. José Luís Garcia, por sua vez, contrapôs a ideia da tecnologia como destino e de adoção acrítica daquilo que é novo. O seu posicionamento aponta no sentido da necessidade de repolitizar as tecnologias.
Nos próximos quatro anos, a Sopcom será presidida pelo professor da Universidade de Coimbra, Carlos Camponez, eleito em assembleia geral da entidade. A próxima edição do Congresso da Sopcom será realizada na Universidade Lusófona, no Porto, nos dias 18, 19 e 20 de janeiro de 2028, com o tema “Comunicação e psicopoder na era digital: algoritmos, cidadania e impactos sociais”.